Psicologia explica revolta diante das urnas

Fenômeno psicológico motiva manifestações coletivas na cena política

Fenômeno psicológico motiva manifestações coletivas na cena política


Bloqueios de estradas e outras manifestações recentes revelaram mais que o descontentamento de uma parcela dos eleitores de Bolsonaro. No âmago do que motiva acontecimentos como os que restringiram o direito de ir e vir de muita gente está a dificuldade de lidar com frustrações. “Esta dor começa com a idealização, algo como fantasiar que tal situação vai acontecer, ao invés de simplesmente vivê-la”, explica a psicóloga Ana Carolina de Carvalho Pacheco. Segundo a especialista, a dor se torna mais complexa e maior porque muitas pessoas não têm objetivos pessoais, projetando para o alheio ou público, um vazio que deveria ser tratado no campo privado e não coletivo.
“O autor Viktor Frankl, por exemplo, acredita que a vida ganha sentido através de um objetivo pessoal do indivíduo. Desta forma, ter foco onde se quer chegar permite a ressignificação de acontecimentos desagradáveis, que passam a ser apenas etapas de um processo, perspectiva que ajuda a superação das situações difíceis”, pondera .
Além de muita gente idealizar e não ter clareza dos próprios objetivos pessoais, todas sentem algum nível de necessidade de pertencimento e aceitação a partir do meio social ao estão inseridas. Com isto, as pessoas podem reproduzir padrões sem questionar ou ter identificação genuína com eles.
“Como já foi dito por Aristóteles ‘somos seres sociais’. Isso implica dizer que a grande maioria das pessoas, cada uma a sua medida, quer se sentir inclusa no seu seio familiar, na sociedade onde está inserida e sem dúvida o ambiente onde se nasce é determinante para o indivíduo ser quem é – por seus hábitos e inclusive seus traumas – e este indivíduo tanto pode se inserir reproduzindo o que aprendeu bem como negar até de forma radical e ter atitudes opostas às que foram de sua criação, por ainda não ter consolidado a própria personalidade mesmo já sendo adulto ”, contextualiza Pacheco.
Este fenômeno se reflete das mais diversas formas sociais da vida das pessoas. Alguém que tem a dependência emocional se caracteriza por necessitar da opinião dos outros para fazer juízo de valor de tudo e inclusive de si mesmo. Pessoas que, como eu sempre menciono aos meus pacientes, quando recebem um elogio ganham o dia e se recebem uma crítica ficam muito mal.
Temos de ter auto consciência para ouvir elogios e críticas sem tantos melindres . Podemos dar razão a uma crítica se sabemos melhor quem somos e não temos medo da opinião do outro sobre nós por sabermos de nossas qualidades e defeitos. Exemplificando como isso se reflete na vida prática podemos imaginar uma pessoa que é realocada no trabalho ou até mesmo demitida; o impacto emocional na vida dela é bem maior do que alguém que vai sentir o baque mas sabe quem é, sabe de seu valor laboral, sabe que novos empreendimentos virão, etc.
Quando o indivíduo entende as ações dos outros como “pessoal” até não ser chamado para algum encontro banal com amigos pode se tornar motivo da pessoa sentir-se rechaçada, excluída, ficar muito brava ou muito triste só por saber que não foi incluída em algo.
O primeiro passo é identificar que se tem essa carência afetiva, que se abala facilmente e buscar ajuda para entender melhor sobre o tema e especificamente sobre os aspectos disto em sua vida. Quais os prejuízos que estão sendo vivenciados por este paciente por não compreender seu quadro. Em seguida é aumentar a consciência quanto ao assunto, perceber os impactos diários na sua rotina, bem como, detectar quais os gatilhos automáticos que o mantém nesta situação.
Através desta auto percepção que vai sendo construída a pessoa vai saindo do “piloto automático”, como usualmente menciono, para ter mais domínio sobres seus pensamentos, sentimentos e ações. Normalmente este processo se inicia com a pessoa percebendo que algo não está indo bem em alguma área de sua vida ou em mais de uma. O indivíduo não sabe o que está havendo, mas sabe que sente algum incômodo com frequência. Se a pessoa se permite olhar para si e tentar desvendar o que está ocorrendo ela vai em busca de autoconhecimento e é a partir daí que os processos de amadurecimento emocional vão sendo desencadeados.
Se adultos vivem “perdidos”, crianças estão ainda mais suscetíveis às dores decorrentes da frustração e precisam de mais estímulos para resiliência. “Pais que atendem todos os desejos de uma criança estão criando um futuro jovem e adulto com grande tendência a se sentir muito frustrado diante da menor contrariedade que ocorra em suas vidas”, adianta Pacheco.
O atendimento psicológico é recomendado para que o crescimento emocional aconteça independentemente da idade da pessoa. Quando falamos de “crescimento” podemos ter a tendência a entender que a referência é endereçada a crianças ou adolescentes, mas não. Estamos falando além disso de trabalhar com adultos que precisam aprimorar seu lado emocional. No setting terapêutico o paciente conhece ferramentas para lidar com suas frustrações e tirar ensinamentos preciosos dos infortúnios.
*Ana Carolina de Carvalho Pacheco é psicóloga e mestre em Psicologia Forense.

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